um homem em termos


E-mail this post



Remember me (?)



All personal information that you provide here will be governed by the Privacy Policy of Blogger.com. More...



Se mo permitem, gostaria esta tarde de começar por dizer que não sou um homem em termos. A única coisa que fiz que se pode dizer que foi de homem em termos foi quando fiz o meu filho de pé contra uma parede.
Toda a vida tive os pés pequenos. Sempre fui continuadamente gozado porque nunca me rebentou a pele de borbulhas e de pêlos tortos, porque nunca os olhos se me sujaram, nem o cabelo me engrossou em sítios e me começou a cair noutros. Foi por isso com grande estranheza que recebi uma carta em que me pediam que viesse aqui hoje e vos ensinasse definitivos a fazerem-se homens, e a fazê-lo de tal maneira que nunca mais ninguém aqui tivesse de vir para vos refazer homens. O que quer que eu dissesse
(a carta não era específica nesse ponto, nem tão-pouco reguladora ou doutrinária)
tinha de fazer com que vos nascessem barbas de um dia para o outro, e que vos engrossassem os testículos e as cordas que fazem a voz, e tinha de vos entulhar tanto medo nas bordas do corpo que a única hipótese vos fosse escavacar nos fundos dos braços pelos músculos de resolver as coisas à pancada. A carta era, aliás, muito de repetitiva e apavorada, e demorava-se enfim a tentar justificar esta súbita necessidade imperativa com a história mais ou menos detalhada de dois de vocês que acharam bem fazerem-se homens um com o outro.
(risos)
Lembrei-me imediatamente de uma história semelhante que se passou aqui era eu cá aluno. Também então, enquanto os outros rapazes se cresciam homens pelos corredores, e comiam com os dois lados da boca, e se entesavam de rigidez nos braços e nos sítios dos ombros, também então dois alunos desta academia se embrulhavam em, e penso que chegou a ser este o fraseamento utilizado
(pelo menos nas filas do refeitório e nos lugares menos sujos de luz)
se embrulhavam em barulhentos atanços e em nós positivamente repuxados, tenho quase a certeza de ser isto o que se dizia
(sempre achei deliciosamente cruéis estas expressões, e tão violentamente cheias de verdade)
que desde o reitor aos homens mais pequeninos, os de mudarem lâmpadas que se encontrem fundidas, toda a academia se mastigava e se engolia de medo. Não devia haver definitivamente gente desta, dizia-se,
– Aqui
completava uma mão cheia de laca, e toda a gente subitamente se contentava que
– Sim, aqui
não crescesse gente dessa, e que lá fora era outra coisa, mas mesmo sendo outra coisa, decretou o reitor, não precisava inerentemente de ser uma badalhoquice sem tamanho, e terá então levado a mão à boca e ter-se-á engolido em seco. Esta conversa do quadro directivo, ou a narração bíblica dela pelo menos, apesar de ter sido milagreiramente excluída das actas
(ver janeiro - março mil novecentos e sessenta e três)
depressa se desdobrou pelos dormitórios, e debaixo das camas, e a cada cambalhota que dava pelas escadas abaixo, das camaratas dos finalistas às dos alunos novos, cada vez mais se atafulhava de sobrancelhas, e de ameaças de catarro, e cada vez mais os alunos em questão se colavam de unhas à parede como musgo e retorcidamente cresciam de pilas, e depois encolhiam outra vez. Como é óbvio, foi imediatamente montada, por péssima de escolhida a palavra, uma comissão de purificação moral, disse a todos o reitor em reunião extraordinária, cujas principais linhas de acção seriam, um, isolar quanto antes os alunos em questão
(recordo vagamente ter sido usada por então a palavra pecadores),
e dois, iniciá-los de imediato num processo de limpeza moral e de reformatação física e espiritual, durante o qual ficariam ao cuidado do capelão em duas celas
(foi celas a palavra utilizada)
obviamente individuais onde passariam metade do dia a pedir perdão a deus pelos pecados cometidos e a outra metade do dia a ver, e a forçosamente gostar muito, acrescentou o reitor, fotografias de mulheres nuas. Deu em nada isto : meses depois tinha voltado a normalidade dos berros abafados no quarto de arrumos
(violentamente verdade)
e os alunos que eram de si direitos continuavam direitos. Enquanto não aparecer mais gente desta, terá dito o reitor numa das reuniões mensais
(ver outubro - dezembro mil novecentos e sessenta e três)
pode dizer-se que temos a situação afinal controlada. Um dos alunos em questão, aliás, chegou a ir uma vez
(uma só)
com uma rapariga para o quarto de arrumos
(pedira-lhe o outro, estava escuro e ele tinha, para todos os efeitos, os olhos fechados, e a reitoria abrira-lhes vagas para que os isolassem e os lambessem direitos pelas cabeças das pilas)
mas foi uma vez, e o outro também uma só, e cedo se perceberam de volta aos atanços, e depressa outra vez se arranharam as paredes continuadamente de musgo.
(pausa)
Não sei se estarei a ser eficaz como dizia a carta que fosse.
(pausa)
De qualquer modo só na cerimónia oficial e solene de fim desse ano
(junho o dezasseis mil novecentos e sessenta e quatro)
estava toda a gente com a cara de festa, e o chapéu de oficialmente saber coisas, e os alunos em questão, um que estavam ao lado do outro, deram-se as mãos pelo meio das capas
(não sei aliás porque me escolheram a mim para vir aqui hoje),
as caras de festa sentiam-se quentes nos meios das mãos, e nos olhos a academia pela última vez
(escolheram-me a mim porque tenho livros escritos em várias estantes do estrangeiro?),
e quando chegou a altura dos louvores, e de atirar os chapéus ao ar
(escolheram-me a mim porque recebi prémios por fazer as coisas bem?),
os alunos em questão levantaram as mãos pelo meio dos chapéus e da embrulhada de gritos, e conseguiram, não se sabe muito bem como, porque toda a academia parou, parar toda a academia, os louvores ficaram-se no meio do ar, o reitor procurava os olhos no chão, e eu não conseguia ver nada, olhava só a ponta do meu braço
(ou escolheram-me a mim perversamente porque era eu em sessenta e quatro?)
deixar de ser minha
(porque éramos nós em sessenta e quatro?)
(pausa)
De qualquer modo pediram-me que vos dissesse aos dois que se deixem disso
(vocês os dois),
desatem as mãos até amanhã, porque amanhã é sempre sessenta e quatro.
Acaba aqui a lição. RC


0 pessoas acharam bem comentar “um homem em termos”

Leave a Reply

      Convert to boldConvert to italicConvert to link

 


Hoje


01|dezembro|2006

The many faces of robert webb.
Isso do ricardinho acabou.

(Rufus Wainwright | Rules and Regulations
> from Release the Stars)



A ler Frost de Thomas Bernhard e ouvir e a ver coisas que se fôssemos aqui a pô-las todas havíamos de chegar atrasados a sítios onde temos horas para chegar.

Já se disse

O que se disse em

Links


Creative Commons License
Os textos publicados neste blog, devidamente assinalados com a firma RC, estão licenciados sob uma Licença Creative Commons.

Powered by Blogger